domingo, 16 de agosto de 2009

PASSOS ENTRE FERRO, PODER E POSSES NA HISTÓRIA DA FAMÍLIA ESCRAVA








imagem: Rugenda

 José de Jesus Santos*

“A escravidão é um período da história universal que afetou todos os continentes, simultaneamente às vezes, ou sucessivamente. Sua gênese é a soma de tudo o que adveio durante um tempo indeterminado, em vários lugares”. (MEILLASSOUX – 1995)
Na infinita antropologia da escravidão do homem pelo seu semelhante o estigma do dominado e do dominante se arrasta pelas estradas da historiografia da vida humana pela Terra. Ser livre ou escravo sempre distanciou um homem pelo outro apenas por questão de posses e poder.
Diferente da sociedade de classes, as relações de produtividade nas sociedades domésticas se dão entre produtivos (adultos aptos para o trabalho) e improdutivos (crianças, mulheres, idosos e incapacitados), é pelo parentesco que se posiciona o sujeito no status social. A fertilidade feminina e masculina fatorizam a existência dessas sociedades – os homens como produtores ligados matrimonialmente legais. A mulher é a produtora da progenitura vista como rainha mágica da vida. Sendo preocupante a filiação entre o estranho (quase sempre objeto de captura) e uma mulher da comunidade, pois sua cria estará mais inclinada aos maus tratos e descriminações por não ter uma linhagem pura, seus privilégios serão escassos. A guerra sempre gerou os subprodutos (cativos e escravos) que são adquiridos por saldo ou compra, estes garantiriam a produção para a sobrevivência da comunidade.
O indivíduo ao se tornar “pai de família” durante toda sua existência de produção volta suas atividades para o crescimento da família que por sua vez constitui o tecido social da comunidade e se o individuo não garantir a alta de natalidade gerará um ponto negativo no produto. Neste caso o estranho é concebido pela sociedade para sanar o déficit através dos matrimônios, o homem e a mulher como reprodutores naturais. Se estes não forem introduzidos no ciclo de reprodução e somente no de produção não serão ressocializados, pois não estabelecem parentescos.
Claude ainda afirma que é impossível “reconstituir a historia do aparecimento da escravidão no mundo”. Segundo ele “só há escravidão, como modo de exploração, se constitui uma classe distinta de indivíduos, com um mesmo estado social e renovando-se de forma contínua e institucional, (...) as relações de exploração e a classe exploradora que delas se beneficia também se reconstituem regular e continuamente. (...)”, havendo ai as mesmas primícias do tratamento das forças de produção que envolve as relações entre o homem produtor e os donos das produções e das áreas destas produções (a terra ou oficinas) que marcam as civilizações antigas, medievais, modernas e contemporâneas.
O encontro dos povos na jornada humana pela sobrevivência e da sua conjuntura organizacional para delimitar suas posses na garantia de seus descendentes possibilitou o desenvolvimento da historia da escravidão que se desenrolou tanto na África como nos demais lugares do velho e novo mundo. O trafico de escravos era um mecanismo mercantil que garantia a formação de exércitos militares ou de trabalhadores com potencial de mão-de-obra que favoreceria a sobrevivência das sociedades que se utilizavam da escravatura. A captura foi uma medida usada por muitas tribos e reinos que se deslocavam e expandiam seus territórios após entraves de guerras. O somatório de guerras desenvolveu exércitos cada vez mais táticos, tanto para defender suas aldeias quanto a atacar e capturar os “inimigos”, alem de estimular a entrada cada vez mais para o interior do continente em expedições ainda mais demoradas e longas. Há exploração do individuo tanto pela classe escravocrata (para seu uso)e a comercial(como produto de venda).
Para explorar ao máximo a força de produção escrava o setor escravagista extrai deste seu subproduto, reduzindo sua capacidade de reprodução na sociedade adquirindo energia canalizada para sua produção e conservava seu subproduto por toda a vida sem dividi-lo com esposa e filhos – muitas das vezes retirados dele, ou nunca lhe deram o direito a consumações matrimoniais deixando-o sempre na posição de estranho e sem parentesco. Tal comportamento não se via na servidão que é um processo distinto da escravidão, nela o individuo tem direito a prole, limitado num território que lhe daria o necessário para a sua sustentabilidade e de sua família. Deveria sempre pagar a mesma cota independente de sua força de produção alem de viver sempre dependente do senhor financeiramente, não era uma mercadoria, mas junto a sua família era um patrimônio do seu senhor.
Neste contexto historiográfico vista como instrumento de afirmação de poder a guerra tinha apoio dos mercadores e soberanos que afirmavam como forma de salvar os prisioneiros capturados. O comercio atlântico dava preferência aos homens adultos a mulheres e adolescentes capturados. Ao passar dos anos o uso da mão de obra escrava por diversos países e principalmente Portugal nas suas colônias de exploração cresceu minimizando a condição humana do negro africano. Tal “ferramenta” bem aplicada nas colônias africanas pertencentes a Portugal fora também experimentado com mais intensidade na colônia do Novo Mundo.
No Brasil o sistema escravista durou por mais de 300 anos proporcionando pelas mãos e pés desses povos o desenvolvimento econômico da colônia, principalmente nas regiões Nordeste, Sudeste e Minas nas atividades canavieiras, cafeeiras e minerais respectivamente. No período da história do Brasil holandês Gaspar van Barleu descrevendo os oito anos da administração de Mauricio de Nassau deixa sua visão senhorial sobre os cativos rotulando os que resistiam no quilombo de Palmares de salteadores ordenados a saquear as lavouras já nos dar um panorama da visão do dominante ao cativo.
Em Sergipe muito pouco ainda fora se publicado sobre a vida dos escravos – apesar de trabalhos como os de Mott, Nunes, Freire apontarem alguns aspectos. Felizmente novos olhares estão surgindo buscando pincelar a vida e formação da família escrava e da resistência do negro nas terras sergipanas fugindo do tradicional enredo da vida política do nosso estado. Principalmente na região atual do Território Sul sergipano temas como este estão surgindo como a formação da família escrava na região da cidade de Boquim antes Lagoa Vermelha que contribui para se recriar a cadeia social e cultural entre a cidade de Estância e principalmente a de Lagarto de onde ela surgira. O estudo feito traz perguntas – e este é o objetivo, a fatos tradicionais da historiografia daquele município e novos dados – e inéditos sobre a relação de escravos e senhores e senhoras proprietários destes percebendo o desenvolvendo das famílias escravas, crescendo assim o plantel desses donos de outros homens. Os passos entre ferro, poder e posses na história da família escrava na região do povoado a vila da Lagoa Vermelha que se passara a chamar Boquim ainda no século XIX e definitivamente cidade no nas primeiras décadas do século posterior.
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*Professor Licenciado em História pela FJAV – Pós-graduando em História do Brasil (INTA)

Fontes:
SANTOS, José de Jesus. Entre engenhos e fazendas: a formação da família escrava na vila Lagoa Vermelha do Boquim (1866-1873) Lagarto, SE: 2009. FIBIANI, Adelmir. Mato, palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão as comunidades remanescentes (1532- 2004). São Paulo: Expressão Popular, 2005.
MEILLASSOUX, Claude. Antropologia da Escravidão: o ventre de ferro e dinheiro. Tradução: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1995.

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